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Revista Metropole
Morar e Viver - Com a corda toda
Cenário: estabilidade econômica, linhas de financiamento e déficit habitacional põem o mercado imobiliário em movimento acelerado
Ana Marson Especial para Metrópole ana.marson@rac.com.br
A expressão “canteiro de obras” talvez seja a mais indicada para retratar o momento pelo qual passa a construção civil em Campinas e região. Uma volta por bairros faz qualquer um comprovar, ao vivo e em cores, a força do mercado de imóveis. Em cada canto, veem-se condomínios horizontais sendo construídos, prédios sendo erguidos e loteamentos residenciais recebendo as melhorias para que os futuros moradores comecem a construir. Com facilidades para quem quer comprar (ou construir), programas habitacionais voltados a famílias de baixa renda e uma grande demanda, não há exagero em dizer que o mercado imobiliário vive uma excelente fase, como há tempos não se via.
“Tudo o que o setor faz, vende, porque o déficit habitacional é grande e tem o financiamento. O dinheiro é a mola propulsora”, afirma o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), José Augusto Viana Neto. Ele cita ainda a estabilidade econômica como fator a incrementar ainda mais o crescimento do setor. Com a economia indo bem, observa, aumenta o número de empregados com carteira assinada e, consequentemente, a renda formal, uma facilitadora na hora de contratar financiamentos.
Esse bom momento do ramo é demonstrado em pesquisa do Creci-SP. De acordo com o levantamento, o segmento manteve, em fevereiro, o desempenho registrado no primeiro mês do ano na venda de usados e na locação de imóveis residenciais. No primeiro caso, o aumento foi de 49,45%; no segundo, de 42,05%. Os dados foram coletados em 1.403 imobiliárias de 37 municípios paulistas. De modo geral, as vendas aumentaram 36,01% (foram 986 imóveis). No Interior, 50,48% das vendas de fevereiro foram de imóveis de até R$ 100 mil.
Os índices positivos devem permanecer. A estimativa do presidente da Habicamp, Francisco de Oliveira Lima Filho, é que haja um crescimento de 10% em toda a cadeia produtiva da construção civil - a previsão tem como base o Índice de Velocidade de Venda (IVV). A julgar pelo que já está ocorrendo, o cenário parece mesmo animador. Embora a quantidade de metros quadrados aprovada no primeiro trimestre do ano tenha sido classificada como “tímida” por Lima Filho (foram 220 mil metros quadrados em toda a Região Metropolitana de Campinas (RMC), contra 209 mil metros quadrados aprovados em janeiro e fevereiro do ano passado apenas em Campinas), o segmento cresceu 7% entre janeiro e março, em relação ao mesmo período de 2009. “São obras sendo construídas. O mercado está bombando, bombando mesmo em termos de construção”, comemora.
Outro indício desta força é a afirmação do presidente da Habicamp de que as empresas que atendem a construção civil com produtos sob encomenda, como lajes e muros pré-moldados, blocos cerâmicos ou de concreto e telhas cerâmicas e de cimento, estão operando com a capacidade produtiva completa até agosto. “A situação do mercado está como em 2007 e deve chegar aos 1,4 milhão de metros quadrados este ano, com a ajuda do Minha Casa, Minha Vida. Em 2008, foram aprovados em Campinas 2,082 milhões de metros quadrados e, em 2009, 1,721 milhão”, comenta Lima Filho.
Mercado promissor
O diretor regional da Rossi, Marcelo Araújo, avalia que, embora ainda não voltado ao patamar de 2007, o mercado é consistente e promissor. “O mercado está aquecido sim. Com o crédito pessoal, ficou mais fácil comprar. Acho que teremos anos promissores pela frente”, aposta. Ele destaca a profissionalização do segmento como um dos motivos para o aumento na qualidade dos produtos e da tranquilidade para comprar. “O mercado já estava aquecido, com as classes A e B, mas a classe C não era atendida. O governo criou mecanismos para atender esse público e o mercado mais do que dobrou”, analisa Rogério Nassralla, diretor da GNO Empreendimentos Imobiliários.
Para Valmir Gonçalves, diretor da Prado Gonçalves, a alienação fiduciária contribuiu para dar segurança aos investidores e mudou o mercado, que vinha de um período de estagnação, sem incentivos governamentais nem garantia para as instituições bancárias emprestarem dinheiro. “O dinheiro do mercado imobiliário gira no mercado imobiliário. É um segmento que gera mão de obra, movimenta a indústria do aço e do cimento, escritórios de engenharia, arquitetura e direito imobiliário. Envolve várias áreas”, comenta.
Bem localizada e com boa infraestrutura e serviços de qualidade, Campinas tem um cenário privilegiado para o mercado imobiliário, situação que deve melhorar ainda mais com a ampliação do Aeroporto Internacional de Viracopos e a construção do Trem de Alta Velocidade (TAV), conforme aponta Silvio Chaimovitz, CEO da ACS. “Em São Paulo está complicado, e as pessoas estão voltando para o Interior. A região tem boa qualidade de vida e é promissora. Tem tudo para crescer”, prevê. Diretor da Pratec, Marcelo Vinholes Ferreira aposta no crescimento do interesse por imóveis motivado pelo aumento da população, pela migração interna e pela permanência definitiva dos que vêm para a cidade (ou para a região) estudar, descobrem oportunidades de trabalho e acabam ficando.
Para atender a demanda
O bom momento da construção civil promove uma busca urgente a dois ingredientes fundamentais para se atender a demanda: materiais de construção e mão de obra qualificada. A solução de parte do problema conta com uma mãozinha do governo, que reduziu as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de cerca de 30 itens da construção civil, como cimento, tinta, verniz, banheiras, box, ladrilhos, revestimentos e vergalhões. A medida se encerraria em junho, mas foi prorrogada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, até 31 de dezembro.
“Com o prazo final em junho, há uma concentração de pedidos que está atrapalhando e encarecendo os preços. A medida vem diminuir essa pressão, essa afobação”, justificou o ministro, quando anunciou a prorrogação. Ainda de acordo com Mantega, a renúncia fiscal com o prazo estendido não deve ser muito maior do que se a redução fosse suspensa em junho, porque as compras serão diluídas até o final do ano. A renúncia inicial foi estimada em R$ 636 milhões.
A qualificação da mão de obra também merece atenção dos empresários do ramo. “O futuro da construção civil é diminuir o número de trabalhadores e aumentar o de processos mecânicos. Antes, misturavam-se os materiais para fazer argamassa e tinha uma equipe para fazer e outra para aplicar. Hoje, a massa vem pré-pronta e precisa de apenas uma pessoa, no máximo duas pessoas, para aplicar”, compara o presidente do Sindicato da Indústria de Construção Civil da Regional de Campinas (SindusCon-Campinas), Luiz Claudio Amoroso. Para ele, a formação dos profissionais desse segmento é importante e deve ser gradativa, começando pela educação básica.
Vale a pena?
Ok. As obras estão a todo vapor, tem bastante dinheiro disponível para financiamentos e há imóveis para todos os bolsos e necessidades. Mas, será que vale a pena adquirir imóveis como uma forma de investimento? O professor de mercado financeiro e coordenador dos cursos de pós-graduação na Veris Faculdades, Daniel Galelli, afirma que investir em imóveis é sempre um bom negócio, pelo retorno que se tem em termos de valorização. Mas é preciso analisar as transações com cuidado.
Comprar imóveis é mais vantajoso quando a demanda está reduzida. Com mais oferta, o preço cai. No entanto, como vivemos uma época de alta procura, ele orienta o possível investidor a avaliar se conseguirá vender o bem por um valor mais alto depois, para não ficar no prejuízo. Para diminuir as chances de errar, Galelli diz que uma boa estratégia é apostar em áreas que ainda não são tão valorizadas, mas que têm tendência e potencial para se valorizar. O interessado deve analisar o preço médio do metro quadrado na região nos últimos três anos, verificando se houve evolução e se existe tendência de valorização.
Para quem não pensa em investir, mas quer logo construir sua casa, o professor faz um alerta. Agora não é hora, porque a carência encarece a mão de obra. Há dois anos, conta, o preço do metro quadrado variava de R$ 1,2 a 1,4 mil; hoje, custa cerca de R$ 3 mil. Um cenário que não deve mudar tão cedo. Galelli acredita que o custo da construção deve se manter nesse patamar aqui no Brasil pelo menos nos próximos dez anos, até por influência de Copa e Olimpíada. Como o País vai precisar investir em infraestrutura para receber os eventos, haverá muito trabalho para os profissionais do setor. Aí, o preço tende a ficar ainda mais alto.
Uma das sugestões de Galelli para quem faz questão de construir é esperar, assim como ele e a mulher, Patrícia Paes, estão fazendo. Eles se planejaram e guardaram dinheiro para comprar o terreno à vista. O projeto da casa, que será construída em um loteamento fechado, está pronto, por enquanto, apenas no papel.
Números que impressionam e demonstram aquecimento
Dos 220 mil metros quadrados de projetos residenciais aprovados na RMC no primeiro trimestre de 2010, 65% eram de empreendimentos verticais e 35% de horizontais.
Ano passado, deram entrada na Prefeitura de Campinas e foram aprovados 77 condomínios horizontais e 144 verticais, de acordo com o presidente da Habicamp, Francisco de Oliveira Lima Filho.
O presidente da Habicamp, Francisco de Oliveira Lima Filho, conta que a maior procura é por imóveis de dois dormitórios, em condomínios verticais, num tamanho médio de 75 metros quadrados, na faixa de R$ 80 mil a R$ 225 mil. A maior concentração desses imóveis em Campinas, está nas proximidades do Shopping Parque D. Pedro e da Avenida John Boyd Dunlop, nas Mansões Santo Antonio, Parque Prado e Barão Geraldo.

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