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Revista Metropole
Eles não são eternos
Casa: perder o animal de estimação é triste, mas, para quem gosta de bicho, é impossível resistir à tentação de arranjar uma nova mascote
Eduardo Gregori gregori@rac.com.br
Um cão bem cuidado vive em média 15 anos. É pouco se comparado a uma tartaruga, que dura mais de um século. E pouco também em relação ao homem, cada vez mais longevo, com cerca de 70 anos de vida. Se a ordem natural não sofrer nenhum revés, cedo ou tarde, o dono de um animal de estimação, que não seja um quelônio, terá de enfrentar a morte do bicho. O assunto comove a ponto de arrancar lágrimas. Que o diga quem assistiu a Marley & Eu, filme baseado no livro do jornalista John Grogan.
Na vida real, os cães vivem e morrem, como o labrador Marley. “Astros imortais”, a exemplo de Rin Tin Tin e Lassie, estrelas de tevê dos anos 1930 e 1950, são personagens de ficção, portanto, eternos.
Quando bem acolhidos, todos os cães se parecem num quesito: passam a fazer parte da família. E perder um animal não é fácil. “A morte faz parte da vida, mas é difícil aceitar. Dói menos quando é natural, por velhice”, afirma Teresa Cristina Rodrigues Amador. A pedagoga convive com animais desde a infância e já vivenciou essa experiência várias vezes. Nos primeiros anos de casamento, teve os filhos e o primeiro cachorro, Jesseto, um boxer que acompanhou de perto o crescimento das crianças. “Ele morreu com problemas no coração, bem velhinho. Todos sofremos”, lembra.
Jesseto deixou um herdeiro, o boxer Brutus, que assumiu o posto de cão-de-guarda e também o trono de amigo incondicional. O tempo passou, as crianças cresceram e, aos 12 anos, Brutus foi diagnosticado com câncer generalizado. “Fui pega de surpresa, porque ele aparentava estar saudável”, lembra.
Orientada pelo veterinário a sacrificar o animal imediatamente, a pedagoga hesitou. “Queria que ele tivesse uma morte tranquila e em casa, mas isso não aconteceu. Depois de um mês, Brutus começou a sofrer. Não tive outra saída a não ser sacrificá-lo.”
O melhor é aproveitar agora
Teresa Cristina Rodrigues Amador tem novas mascotes em casa: a poodle toy Mini e a rottweiler Luna. “Mini é uma grande companhia. Se estou vendo tevê, ela fica comigo; se vou ao computador, ela se aninha nos meus pés; quando vou dormir, deita-se aos pés da cama”, conta. A companheira tem 11 anos e sofre com a idade avançada. A catarata roubou-lhe quase 100% da visão. Também não consegue mais subir no sofá sozinha. Mudar móveis de lugar implica muitas trombadas de Mimi pela casa. A pedagoga acompanha os indícios de velhice da cadela, mas procura não sofrer com antecedência. “Sei que vai ser triste quando chegar a hora dela, mas não penso nisso agora”, diz.
Eniveide Boscolo vive história parecida à de Teresa. Há cinco meses, a cabeleireira perdeu Uli, uma poodle mesclada com cocker que a acompanhou por 14 anos. A cadela Luma, cria de Uli, tem 9 anos, portanto está na terceira idade canina. “O veterinário me alertou sobre a idade avançada dela. Prefiro aproveitar cada momento que temos juntas”, diz.
Luma é a quarta geração de animais que mora com Eniveide. “Meu pai nunca permitiu que tivéssemos bichos. Planejei ter um cão quando tivesse minha própria casa”, lembra. Quando se casou, Eniveide abrigou a vira-lata Katucha. E, seis anos depois, veio a notícia: “Ela foi diagnosticada com cinomose e tive que sacrificá-la. Foi muito difícil”, lembra. Em pouco tempo, Yuri, um fox paulistinha, entrou para a família Boscolo. A passagem pela casa foi curta, apenas um ano. “Ele adorava ir até a calçada. Um dia, um carro em alta velocidade subiu na calçada e atingiu o cachorro. Foi horrível.”
Então foi a vez de Uli, que chegou à casa com 40 dias e viveu 14 anos com a família. Eniveide não consegue segurar as lágrimas pela perda recente que, segundo ela, jamais será superada. “Uli era doce, uma grande amiga”, conta. A morte da cachorra foi uma surpresa para a família. “Havia surgido um caroço no pescoço e a levei para uma consulta de rotina. O veterinário disse que ela estava com uma infecção generalizada irreversível.”
Terceira idade saudável
Assim como os seres humanos, os animais também atingem a terceira idade. No caso dos cães, ela chega aos 8 anos. Nesta etapa, começam a surgir os primeiros sintomas de doenças relacionadas à velhice. “Os cães idosos podem desenvolver diabetes, câncer, problemas na coluna, problemas hepáticos, entre outros”, explica o médico veterinário José Alexandre Tonella.
Identificar os sintomas é crucial para garantir ao animal uma velhice sadia e digna. “O aumento no xixi pode indicar diabetes, enquanto fezes muito enegrecidas denunciam um problema hepático”, explica. O veterinário lista outros sinais, como a dificuldade em levantar, passos enrijecidos, dificuldade na mastigação e surdez.
Apesar de todas as prováveis doenças que podem desenvolver na velhice, os cães estão vivendo mais e melhor. “Atualmente, há rações específicas para idade avançada. Isso tem contribuído para ampliar a expectativa de vida do animal”, avalia.
Além dos avanços em medicamentos e rações, a medicina veterinária vem conquistando terreno no tratamento de doenças como o câncer. “Antigamente, um animal com câncer esperava a morte. Hoje, há tratamento cirúrgico e até quimioterápico”, diz Tonella. A conquista vem transformando também os donos de animais, que antes optavam pelo sacrifício e hoje buscam a cura.
Quando todos os recursos se esgotam e o organismo não responde mais ao tratamento, é preciso avaliar como será a sobrevida do animal. Para o veterinário, uma etapa difícil é convencer o dono da necessidade de sacrificá-lo. “A pessoa tem medo de perder a companhia e isso é egoísmo. Se o animal for sofrer, o melhor é que seja sacrificado.”
Histórias reais que emocionam
A amizade entre homem e animal, assim como a superação da morte de um cão, são temas constantes no cinema. No Natal de 2008, Marley & Eu, dirigido por David Frankel, chegou às telas e desbancou até o megassucesso Crepúsculo. O filme, uma adaptação do livro homônimo do jornalista John Grogan, arrecadou mundialmente US$ 245 milhões.
Um ano depois, outro enredo comovente chegou ao cinema. Baseado em uma história real ocorrida no Japão, o longa-metragem Sempre ao seu Lado conta a história de um professor universitário e um cão akita, encontrado ainda filhote na periferia de Nova York. A história fez tamanho sucesso que desencadeou uma verdadeira febre no Japão por akitas, cão nipônico que estava praticamente esquecido em seu país de origem.
Velhinhos importantes
Com uma longevidade mediana de 15 anos, alguns cães parecem ter conseguido driblar o tempo. Até 2009, o cachorro com o título de mais velho do mundo, de acordo com o Guinness Book, era uma dachshund norte-americana de 21 anos. A cadela morreu no final de 2009, em casa.
Com a morte da dachshund, outro cão norte-americano é candidato ao título de mais velho do mundo. Supostamente com 26 anos de idade, Max vive no estado da Louisiana, onde aguarda reconhecimento do livro dos recordes.
Recordista absoluto
Os livros especializados em cães afirmam que o australian cattle dog (foto) vive muito bem até os 15 anos de idade. Porém, há diversos registros afirmando que exemplares conseguem atingir 30 anos, sendo portanto a raça mais longeva que existe. A árvore genealógica do australian cattle dog (foto) começa com o cruzamento de highland collies com dingo, o temido cão aborígene da Austrália. O animal surgido dessa mistura foi cruzado com bull terrier, dálmata e kelpie preto-e-canela, dando origem à atual raça. O australian cattle dog é conhecido por outras denominações, entre elas, boiadeiro australiano, australian queensland heeler, blue heeler ou ainda red heeler. Dono de uma personalidade forte, o australian cattle dog é considerado um dos melhores cães pastores do mundo. Uma de suas características é pastorear sem latir. O branco da pelagem, que se destaca entre outros tons escuros, não é um sinal de idade, mas herança dos dálmatas. É o cão que aparece no filme O Segredo de Brokeback Mountain, dirigido por Ang Lee.

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